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O sorriso da Renata

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# O sorriso da Renata

Toda a minha vida foi construída em volta do sorriso da minha esposa. Três mil e duzentos reais — foi o que custou o último tratamento dela na dentista aqui em São Bernardo, e isso antes de eu entender que o problema de verdade estava em outro lugar totalmente diferente.

Trabalho como gerente de turno numa padaria industrial grande, na região do ABC. Turnos de doze horas, farinha entranhada embaixo das unhas, e um cheiro de fermento que não sai da roupa nem depois de três lavagens. Renata sempre dizia que esse cheiro era a coisa mais parecida com lar que ela conhecia. Ela ria quando eu chegava de madrugada, me abraçava sem reclamar, e depois me mandava tomar banho antes que as crianças acordassem.

Tudo começou quando percebi que ela tinha parado de sorrir.

No começo achei que era comigo. Que talvez estivesse cansada de mim, da rotina, do financiamento do apartamento. Tentei conversar. Ela dizia que estava tudo bem, que o dente estava meio sensível. "Uma dorzinha", ela chamava assim. "Vou marcar uma consulta."

Foi então que notei que ela ficava segurando o maxilar quando achava que ninguém estava olhando.

Marquei uma consulta com o dentista que me atende há anos. Roberto, um cara gente boa, tem consultório na Avenida Kennedy. Ele fez radiografia, examinou, e depois me chamou para entrar na sala. Renata estava sentada na cadeira, guardanapo de papel branco preso no pescoço, e parecia pequena daquele jeito.

"O esmalte dela está desgastado", disse Roberto baixinho. "Todos os dentes da frente. Eu vejo isso em gente que trabalha com produtos ácidos, ou em quem toma muito refrigerante."

Renata não trabalha com produtos ácidos. Ela é professora de educação infantil numa creche do bairro.

"O que fazemos?" perguntei.

Roberto girou o teclado, mostrou umas imagens na tela. "Pasta dessensibilizante, verniz de flúor, talvez umas restaurações na parte da frente. Mas isso não vai devolver o que já foi perdido. Só vai atrasar a piora."

O valor que ele jogou no ar — doze mil reais pela boca inteira, incluindo facetas — soou como piada. Mas Renata assentiu com a cabeça, e eu já sabia que ia arranjar o dinheiro.

Foi bem quando eu achava que sabia para onde essa história ia que meu irmão me mandou uma reportagem no WhatsApp.

"Olha isso aqui", escreveu ele. "Talvez você não precise quebrar a cabeça."

Li o título uma vez. De novo. E mais uma vez, porque não acreditava no que meus olhos estavam vendo.

Pesquisadores da Universidade de Nottingham — não aqui, na Inglaterra — desenvolveram um gel novo que faz o esmalte perdido crescer de novo. Sem flúor, sem broca, sem obturação. A substância imita proteínas naturais que comandam a formação do esmalte em bebês. Passa-se na dentina, e ela puxa íons de cálcio e fosfato da saliva, construindo uma camada mineral nova. Chamam isso de mineralização epitaxial. O tecido novo se liga à estrutura do dente como se tivesse nascido junto.

Mandei a reportagem para o Roberto.

Ele me ligou no meio do turno, coisa que ele nunca faz.

"Escuta", ele disse, e a voz dele estava estranha. "Li o estudo. É real. Eles testaram o esmalte regenerado sob cargas que simulam mastigação, escovação, até contato com comida ácida. Ele se comportou exatamente como esmalte natural."

"Então por que ainda não está no mercado?"

"Porque ainda não chegou lá." Ele ficou calado um instante. "A equipe abriu uma startup. Chama Mintech-Bio, nem é britânica. A meta deles é lançar o primeiro produto já ano que vem."

Ano que vem.

Naquela noite, Renata estava sentada no sofá, pernas dobradas embaixo do corpo, lendo uma história para as crianças no tablet. Ela não sabia que eu estava olhando. Quando achou que eu estava na cozinha, passou a língua nos dentes da frente, movimento lento de quem checa se a dor ainda está ali.

Depois voltou para dentro da história, voz firme, quente, do jeito que as crianças gostam.

Comecei a pesquisar.

Não dormia direito à noite. Não por causa dos turnos — já estou acostumado a trabalhar de madrugada. Sentava com café preto na frente do computador, no quartinho dos fundos, entre as prateleiras de farinha, e ficava vasculhando. Estudos clínicos. Listas de espera. Grupos de Facebook de gente cujos dentes tinham virado dor crônica. Conversei com uma atendente de plano odontológico que só riu quando perguntei sobre tratamento experimental no exterior.

Enquanto isso, Renata recebeu um tratamento provisório com o Roberto. Verniz, aplicações, instruções para usar uma pasta específica duas vezes ao dia. Saiu por mil e cem reais. Renata pagou da conta dela, sem me contar, e eu só fiquei sabendo pelo extrato que chegou pelo correio.

"Eu podia ter pago", falei.

"Eu sei", ela respondeu, cortando uma salada, a faca subindo e descendo num ritmo constante. "Mas era uma coisa que eu conseguia fazer sozinha."

Essa frase ficou grudada em mim.

Entendi que não podia simplesmente esperar um ano até o gel chegar às prateleiras. Não podia ficar vendo minha esposa parar de comer maçã porque doía. Não podia vê-la com os lábios apertados daquele jeito nas fotos de casamento de outra pessoa.

Quando o Roberto ligou pela segunda vez, a voz dele estava diferente. Cansada.

"Escuta, tem uma questão aqui."

"O quê?"

"Um lote inicial. Limitado. Eles abriram inscrição antecipada por meio de uma distribuidora em Amsterdã. Não vai chegar ao Brasil por nenhuma via oficial."

"E daí?"

"E daí que conheço um cara que viaja para a Holanda todo mês. Ele pode trazer. Mas vai custar caro."

Perguntei quanto.

O número que ele falou me fez calar a boca.

Vinte e dois mil reais. Incluindo exames, acompanhamento a distância, sem garantia nenhuma. Dinheiro que eu não tinha. Dinheiro que nós não tínhamos. Economia de dois anos.

Naquela noite, terminando o turno, voltei para casa no primeiro ônibus. Sentei atrás, perto de uma janela com o vidro riscado, olhando a cidade acordar. Num dos prédios já tinha luz acesa na cozinha, alguém em pé dobrando roupa. Ou fazendo salada. Ou só esperando o café passar na xícara.

Foi aí que percebi que estava inventando uma história que não tinha como saber se era verdade.

É assim que funciono: vejo um fragmento da vida de alguém e invento uma continuação. Pensei na Renata. Pensei em todas as fotos dela que eu amo — ela sorrindo aberto, dentes brancos, e eu nunca tinha percebido o quanto amava aquele sorriso até ele começar a sumir.

Em casa, Renata dormia, e as crianças dormiam, e o apartamento estava quieto.

Abri o computador no quartinho que servia de closet e depósito ao mesmo tempo. Entre caixas de roupa de bebê que ainda não tínhamos doado, entre vasos de planta morta que eu prometia jogar fora, abri uma página nova.

"Inscrição antecipada — tratamento experimental de esmalte", digitei na busca, os dedos tremendo de leve.

Sete da manhã em ponto. Minha filha se virou na cama, no quarto ao lado.

Foi então, bem quando eu ia clicar no botão de pagamento, que Renata apareceu na porta.

Ela olhou para a tela. Para mim. Para o cartão de crédito em cima da mesa.

"Vinte e dois mil", ela disse. Não perguntou de onde tinha vindo a informação. Falou o número num tom uniforme, e esse tom era mais assustador do que qualquer grito.

"Renata—"

"É toda a nossa economia."

"Eu sei."

Ela entrou no quarto, fechou a porta atrás de si com cuidado para não acordar as crianças. Sentou na beira da cama, perto da mesa. Pegou o cartão de crédito na mão, virou uma vez, colocou de volta em cima da mesa.

"Você trabalha doze horas por noite", ela disse. "Dorme cinco horas por dia. Já nem vai mais à praia no domingo porque está cansado demais."

"Renata."

"E eu vivo com esses dentes todo dia. Toda manhã eu acordo e checo se a dor ainda está lá. Essa é a minha vida. Não a sua."

Silêncio.

Do lado de fora da janela começava um dia comum. Um ônibus freando no ponto. Um pombo brigando com o ar-condicionado do vizinho.

"O que você está querendo dizer?" perguntei.

Ela se levantou, abriu a porta do quarto e saiu.

Depois, um instante depois, voltou com um envelope.

"Vinte e dois mil", repetiu. "Mas não no cartão. Em dinheiro."

Abriu o envelope, virou sobre a mesa.

Maços. Fajos de notas de cinquenta e cem, organizados por valor, cada um envolvido num papelzinho com um número escrito. Economia. Embaixo do colchão, ou no fundo da gaveta de meias, ou em algum lugar assim que Renata achava que eu não ia encontrar. Mas ela também tinha guardado. Guardava dinheiro dela, havia anos, notas pequenas que ia separando antes de gastar com coisas do dia a dia.

"Você não vai fazer isso sozinho", ela disse. "Se a gente for fazer, a gente faz junto."

Olhei para as notas. Olhei para ela.

E naquele momento, pela primeira vez em meses, Renata sorriu. Um sorriso pequeno, fechado, que começou nos cantos da boca e foi subindo devagar até os olhos.

"Então liga para o Roberto", ela disse. "Que ele feche isso antes que eu me arrependa."

Roberto atendeu o telefone antes do segundo toque.

"Escuta", falei. "A gente tem o dinheiro. Fecha a inscrição."

Do outro lado ficou um silêncio longo. Ouvi ele respirando. Depois, com voz baixa, ele disse:

"Não paga ainda. Vem aqui primeiro. Tem uma coisa que você precisa ver."

Essa frase acendeu em mim um sinal vermelho, igual sirene de ambulância.

"O que houve?"

"Não quero falar por telefone. Vem depois do seu turno. Vem sozinho."

Desliguei.

Renata olhou para mim, da mesa, as mãos ainda sobre as notas. Não perguntou. Viu no meu rosto.

"Vai lá", ela disse. "Eu espero aqui."

O consultório do Roberto estava escuro quando cheguei, mas lá dentro uma luminária pequena estava acesa. A porta não estava trancada. Entrei.

Roberto estava sentado na mesa de trabalho, o monitor grande ligado na frente dele, e na cadeira de paciente estava sentado um homem que eu não conhecia. Uns sessenta e poucos anos, óculos, vestindo uma camisa social que sobrava um botão de tão larga.

"Esse é o professor Antônio Vasconcelos", disse Roberto. "Especialista em materiais odontológicos, ligado à USP, e acompanha alguns estudos clínicos aqui no país."

O professor se levantou e apertou minha mão. Olhou para mim com uma certa gentileza, daquelas que médico reserva para quem vai receber uma notícia complicada.

"Eu sei o que você está prestes a fazer", ele disse. "E o Roberto me contou sobre a inscrição antecipada por Amsterdã. Não faça isso."

Abriu uma pasta em cima da mesa. Tirou de dentro folhas impressas, marcadas com caneta, títulos em inglês.

"Esse gel", continuou ele, "é um avanço de verdade. O estudo foi publicado numa revista científica internacional esse ano. Grupo de pesquisadores de Nottingham, com histórico de trabalho inovador. Não é papo furado."

"Então qual é o problema?"

"O problema é que o produto clínico ainda não existe." Ele apontou para um dos parágrafos. "Eles abriram a Mintech-Bio, sim. A meta é para o ano que vem. Mas nenhuma aprovação regulatória foi dada ainda. Nenhum lote foi liberado. Essa inscrição antecipada que você está para pagar é intermediação particular de alguém aproveitando o desespero das pessoas."

Uma pontada afiada passou atrás dos meus olhos.

"Então é golpe?"

"Não exatamente. Talvez otimismo. Talvez aproveitamento precoce. Eu não chamaria de crime, mas chamaria de perigoso." Ele tirou os óculos e dobrou as hastes. "Se você pagar, não sabe o que vai receber. Não sabe se vai funcionar. Não sabe se a Renata vai ficar segura. E se der errado, você não tem para quem recorrer."

Roberto ficou quieto, olhando para a própria mesa.

"Então o que eu faço?" perguntei.

O professor deu um sorriso cansado.

"Você espera. Ou você coloca ela num estudo clínico oficial. Tem um abrindo no Hospital das Clínicas na primavera. Não é o gel, é outra substância, mas está sendo testada. Com acompanhamento. De graça."

Olhei pela janela. O sol nascia por trás dos prédios, tingindo tudo de laranja.

Voltei para casa enquanto Renata fazia café. As xícaras estavam na pia. Ela não perguntou nada; serviu as duas e me estendeu uma.

"O dinheiro", ela disse. "O que você fez?"

"Nada. Ainda."

Ela assentiu com a cabeça. Depois sentou na minha frente.

"Quero que você me escute", ela disse. "Eu vivo com isso todo dia. Todo dia a dor está lá. E eu te amo, mas se existe uma chance — mesmo pequena — de fazer isso parar, eu não sei quanto tempo consigo esperar."

Foi a primeira vez que ela falou assim, dessa forma.

Imaginei ela dentro do consultório do estudo, alguém examinando a boca dela, formulários, perguntas, exames. Imaginei também aqueles maços de dinheiro em cima da mesa, arrumados direitinho, esperando.

Tirei do bolso um papel pequeno. Um número de telefone. Anotei na cozinha, na frente da Renata, num pedaço de papel do ímã da geladeira.

"Tem um estudo clínico no Hospital das Clínicas", falei. "Oficial. Com acompanhamento. Abre na primavera. Fazem inscrição antecipada."

Ela ficou calada um tempo.

"E se não for aceita?"

"Aí a gente vai saber que esperou com o dinheiro em vez de jogar fora em Amsterdã."

Ficamos nos olhando.

E naquela manhã, com a luminária acesa na pia, cheiro de café e a cidade acordando atrás do vidro, Renata se levantou, abriu o envelope, e tirou de dentro exatamente catorze mil reais — o valor que o professor tinha estimado para a inscrição oficial, incluindo exames e tratamentos complementares.

O resto ela guardou de volta no envelope e colocou na gaveta dos talheres de festa.

"Divide isso", ela disse. "Paga a inscrição, e o resto volta para a poupança."

Liguei para o Hospital das Clínicas ainda naquele mesmo dia, da sala, com Renata sentada ao meu lado.

A atendente que respondeu pediu os dados. RG. Histórico médico. Lista de remédios. Quando chegamos na pergunta da idade, Renata falou o ano de nascimento dela com voz firme.

"Trinta e nove", disse ela.

Depois, no silêncio entre o fim da ligação e o começo do dia, Renata pegou uma maçã da fruteira na pia. Sorriu para mim por um segundo, e cravou os dentes nela.

Ouvi a mordida. Firme. Nítida.

Ela comeu meia maçã sem parar.

E naquele instante, exatamente naquele instante, sorriu um sorriso inteiro.

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