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Ricardo passou a noite a repetir para si mesmo que Helena estava apenas a tentar assustá-lo.

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Ricardo passou a noite a repetir para si mesmo que Helena estava apenas a tentar assustá-lo.

Telefonou-lhe várias vezes.

Ela não atendeu.

Depois chegaram as mensagens:

«Temos de conversar.»

«Não podes destruir quinze anos por causa de um erro.»

«Miguel está a usar-te.»

Helena leu a última durante uma reunião com fornecedores.

Bloqueou o número.

Não para castigar Ricardo.

Precisava de terminar um dia de trabalho sem voltar a ser responsável pelo pânico do homem que tinha criado o próprio problema.

Quando Ricardo chegou a casa, encontrou caixas no corredor.

— Estás a expulsar-me?

— A casa era dos meus pais antes do casamento. Tens duas semanas para encontrar outro lugar.

— Depois de tantos anos tratas-me como um estranho?

Helena dobrou uma camisa e colocou-a numa caixa.

— Trato-te como um adulto que deve assumir as consequências das próprias escolhas.

Ricardo apontou para a bagagem.

— Foi Miguel que te aconselhou?

Helena parou.

— Durante anos achaste que eu não conseguia decidir nada sem ti. Agora finalmente decido e continuas a acreditar que outro homem teve de escolher por mim.

Ricardo ficou em silêncio.

Nos dias seguintes mudou várias vezes de estratégia.

Primeiro pediu desculpa.

Depois recordou as férias, o nascimento do filho e os primeiros anos do casamento.

Por fim afirmou que Sofia não significava nada.

Helena aceitou ouvi-lo uma vez.

— Se não significava nada, então arriscaste a nossa família por algo que tu próprio consideras sem valor.

— Cometi um erro.

— Um erro é esquecer uma data. Tu mentiste durante meses, usaste dinheiro comum e preparaste desculpas para cada atraso.

— Devolvo tudo.

— Tens de devolver. Mas o dinheiro não compra novamente a confiança.

Ricardo baixou a voz.

— Então já não posso fazer nada?

— Podes parar de esperar que eu elimine as consequências por ti.

Na empresa, a situação tornou-se pior.

A auditoria encontrou estadias em hotéis apresentadas como viagens profissionais, jantares com Sofia registados como reuniões com clientes e vários reembolsos sem justificação.

Ricardo falou em falhas administrativas.

A diretora financeira colocou as datas diante dele.

Muitas coincidiam com fotografias publicadas por Sofia.

A promoção foi cancelada.

Ricardo teve de devolver o dinheiro e perdeu a chefia da equipa.

Convenceu-se de que Miguel tinha organizado tudo.

Esperou por ele à saída do estúdio.

— Usaste a Helena para destruir a minha carreira.

Miguel respondeu com calma:

— Não fui eu que preenchi as tuas despesas.

— Influenciaste a direção.

— A direção avaliou documentos apresentados por ti.

— Tens alguma coisa contra mim.

Miguel olhou-o por alguns segundos.

— Não o conheço suficientemente para ter alguma coisa pessoal contra si.

A resposta feriu Ricardo mais do que uma acusação.

Durante anos imaginara-se no centro das decisões dos outros.

Para Miguel, era apenas um funcionário prejudicado pelas próprias ações.

Sofia também voltou a contactá-lo.

Não queria retomar a relação.

Exigia apenas que ele pagasse uma viagem reservada em nome dela.

— Pensei que existia algo verdadeiro entre nós — disse Ricardo.

Sofia riu sem alegria.

— Tu querias uma mulher que te admirasse. Eu pensei que tinhas mais dinheiro e influência. Não transformemos isso numa grande história de amor.

Depois foi embora.

Ricardo viu finalmente a relação sem as frases elegantes com que a justificara.

Não fora uma paixão inevitável.

Fora um acordo entre a vaidade dele e as expectativas dela.

A nova vida de Helena também não era simples.

No primeiro grande projeto, chegaram materiais errados, o orçamento começou a aumentar e o cliente alterou várias vezes as exigências.

Miguel ofereceu-se para conduzir a reunião seguinte.

Helena recusou.

— Se sou responsável pelo projeto, também preciso de enfrentar as conversas difíceis.

— Não tens de provar que consegues fazer tudo sozinha.

— Não estou a tentar provar isso. Só não quero que um homem volte a falar por mim e transforme depois a ajuda numa dívida.

Miguel assentiu.

— Então de que precisas?

— Revê o contrato comigo. Na reunião, falo eu.

Essa diferença tornou-se a base da colaboração.

Miguel oferecia experiência.

Helena mantinha as decisões.

Quando alguns colegas começaram a insinuar que ela só conseguira o projeto por causa dele, Helena reuniu a equipa.

Colocou sobre a mesa os desenhos, os cálculos e o calendário.

— O meu trabalho pode ser criticado. Mas não aceito que cada resultado seja automaticamente atribuído ao homem que está ao meu lado.

Miguel não a defendeu publicamente.

Sabia que isso confirmaria exatamente aquilo que Helena estava a contestar.

O projeto ficou concluído dentro do prazo.

Uma revista especializada publicou fotografias e apresentou Helena como autora principal.

Ricardo levou o artigo para a última reunião do divórcio.

— Tornaste-te bem-sucedida em poucos meses.

Helena abanou a cabeça.

— Não me tornei competente em poucos meses. Voltei a usar capacidades que deixei de lado durante anos.

— Estás a dizer que eu te impedia de trabalhar?

— Nunca o disseste diretamente.

Ricardo endireitou-se, quase satisfeito.

Helena continuou:

— Mas sempre que eu tentava regressar, o teu trabalho tornava-se mais importante. A casa, o nosso filho, a tua família e todos os imprevistos voltavam a ser apenas responsabilidade minha.

— Então também escolheste aquela vida.

— Sim. Escolhi demasiadas vezes a paz em vez de mim própria. Essa parte pertence-me.

Ricardo não esperava tal resposta.

Helena não fingia ter sido completamente incapaz de escolher.

Reconhecia que tinha cedido durante anos.

Mas assumir essa parte não diminuía a responsabilidade dele pela traição e pelas mentiras.

— Se ambos errámos, podemos recomeçar — disse Ricardo.

— Eu já recomecei.

O divórcio terminou sem reconciliação.

Ricardo mudou-se para um apartamento mais pequeno.

No início dizia a todos que Helena e Miguel lhe tinham destruído a carreira.

Um colega respondeu:

— Se não tivesses apresentado despesas pessoais como profissionais, ninguém teria encontrado nada.

Ricardo odiou aquela frase.

Com o tempo, deixou de repetir a sua antiga versão.

Sem Helena para reparar os seus problemas e sem Sofia para admirar cada história, teve de aprender a viver sem plateia.

Helena não iniciou imediatamente uma relação com Miguel.

Quando ele a convidou para jantar fora do trabalho, respondeu:

— Não quero sair de um casamento e entrar diretamente noutra história em que a minha vida volte a girar à volta de um homem.

— Não te estou a pedir nenhuma promessa.

— Ainda bem. Não estou pronta para a fazer.

Continuaram a trabalhar juntos.

Às vezes jantavam.

Noutras alturas passavam semanas a falar apenas de projetos.

Miguel nunca usou o apoio profissional como argumento para exigir espaço na vida privada de Helena.

Foi precisamente por isso que a confiança começou a crescer.

Um ano depois, Helena voltou à ópera.

Desta vez chegou sozinha.

Usava o mesmo vestido cor de vinho, ligeiramente alterado.

Durante o intervalo encontrou Ricardo no átrio, acompanhado por colegas.

— Estás bem — disse ele.

— Pareces mais tranquilo.

— Aprendi a preencher corretamente as despesas.

Helena sorriu de leve.

Já não existia intimidade entre eles.

Mas também não existia a necessidade de continuar a magoar.

Ricardo olhou para o programa que ela segurava.

— Estás à espera do Miguel?

— Não.

— Ele não vem?

Helena voltou-se para as portas da sala.

— Nem tudo o que faço precisa de receber significado através do homem que está ao meu lado.

Entrou sozinha.

A liberdade não tinha começado quando saíra da limusina com Miguel.

Começara meses antes.

No momento em que deixou de perguntar como poderia preservar a imagem de Ricardo e começou a perguntar que vida queria construir para si.

Na secretária do novo estúdio mantinha uma frase escrita à mão:

NÃO É VINGANÇA DEIXAR ALGUÉM ENFRENTAR AS CONSEQUÊNCIAS DAS PRÓPRIAS ESCOLHAS. É O MOMENTO EM QUE DEIXAMOS DE NOS SACRIFICAR PARA O PROTEGER DELAS.

Na vossa opinião, Helena fez bem ao não iniciar imediatamente uma relação com Miguel e ao reconstruir primeiro a própria independência, ou deveria ter dado sem medo uma oportunidade ao homem que respeitava verdadeiramente o seu talento?

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