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O microfone quebrou, mas ela nunca teve tanta voz

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O ônibus 472 roncava ladeira acima da Avenida Pasteur. Natalia sentiu o suor escorrer pela nuca — o ar-condicionado tinha desistido fazia horas e o termômetro da rua marcava 35 graus, quase um inferno carioca de dezembro. Ela abanava o rosto com um folheto velho do Mercado Municipal, enquanto a mão direita segurava a bolsa com força. Lá dentro, o script da edição de hoje do "Manhã Viva" já estava amassado de tanto ser relido.

— Próxima: Botafogo. — a voz do motorista veio abafada.

Ela desceu e quase esqueceu de pagar o bilhete único. R$ 4,05 salvos, pensou. Melhor que nada. Na calçada, comprou um pingado e um pão de queijo na banquinha do Seu Zé. R$ 6,50. O pão de queijo estava quente demais e ela queimou o céu da boca, mas foi o único conforto naquela manhã.

Veio a pé até o prédio da TV Carioca, um cinza sem graça na Rua da Passagem, mas que por dentro era uma loucura. No elevador, se viu no espelho deformado: uma mulher de 35 anos, olheiras fundas, cabelo preso às pressas. Mãe solteira da Maria Clara, 8 anos, que na noite anterior não dormiu porque a pequena teve febre. Dona Ivete, a vizinha do 402, ficou com ela e prometeu levá-la pra escola. Natalia nem teve tempo de agradecer direito.

— Aí está você! — era Seu Armando, o produtor, suando mais que um frango de padaria. — Natalia, a Regina fraturou a perna ontem, caiu no set de gravação. Você é a única que conhece o programa por dentro. É agora ou nunca.

Natalia sentiu o estômago revirar. A última vez que tentou aparecer na frente das câmeras foi num teste pra um canal de notícias, há uns dez anos. Deu branco, gaguejou, saiu chorando do estúdio. Desde então ficou nos bastidores, operando microfone, ajustando luz, vendo outros brilharem. Mas o Armando confiava nela.

— Seu Armando, eu…

— Sem essa, garota. O programa entra às oito. Você já está pronta. Vá pra maquiagem.

Na sala de maquiagem, a lâmpada do espelho tinha queimado. Natalia teve que usar a lanterna do celular apoiada num pote de algodão. Enquanto passava base, ouviu a risada fina da Vanessa, estagiária de 27 anos que achava que o posto de apresentadora era dela por direito divino.

— Tá nervosa, tia? — Vanessa se aproximou, com uma falsidade que dava pra cortar.

— Só preocupada, essa luz de velório não ajuda. — Natalia não deu trela.

Vanessa riu de novo e saiu, deixando um rastro de perfume doce. Natalia vestiu o blazer, alisou a manga com a palma da mão e respirou fundo.

Dez pras oito, ela foi pro estúdio. O cenário era um jardim falso com uma mesa de vidro. Ao fundo, a janela mostrava o Pão de Açúcar cinzento sob a neblina. Natalia respirou fundo, lembrando da Maria Clara: "Mamãe, você vai arrasar. Rezei pro Santo Antônio e até acendi a vela colorida que a tia Valéria deu."

O sinal vermelho acendeu. A vinheta tocou. Natalia começou:

— Bom dia, Rio! Hoje o nosso "Manhã Viva" vai ter um gostinho de recomeço…

E fluiu. Ela entrevistou um chef que fazia moqueca de banana, brincou com o humorista da casa, leu as notícias do teleprompter. Tudo ia bem, tão bem que ela quase relaxou.

No intervalo, Vanessa estava atrás da câmera 2, agachada junto ao conector do microfone de lapela. Natalia estranhou, mas a jovem logo se afastou com um ar de deboche.

— Testando 1,2,3… Tudo ok? — Natalia perguntou ao técnico.

— Tudo nos trinques, pode voltar.

Voltou. Começou a falar de uma campanha de adoção de animais. E então, no meio da terceira frase, o retorno estalou e o som sumiu. A luz verde do transmissor apagou. O técnico fez sinal frenético. No ponto eletrônico, a voz de Armando: "Sem áudio! Caiu o canal 1! Repito, sem áudio!"

Natalia sentiu o sangue gelar. Encarou a câmera — milhões de pessoas assistindo em casa. Viu Vanessa no canto, encostada na parede, com os braços cruzados e aquele ar de satisfação. Entendeu.

O pânico durou um segundo. Então, em vez de correr, seus passos a levaram até o pedestal ao lado da câmera 1. Agarrou o microfone de mão reserva, acionou o botão e, num movimento fluido, voltou para o centro do cenário.

— Gente, o microfone deu pane, mas a tecnologia não vai calar a história de hoje, porque essa história merece ser ouvida, merece ser sentida. Vocês aí em casa, que acordaram cedo, que estão com o café na mão, quero contar sobre um cachorrinho que mudou a vida de uma vovó lá na Tijuca…

O som invadiu o estúdio no mesmo instante, limpo. O técnico correu para ajustar o ganho, mas Natalia já estava no ritmo. Ela descreveu o cachorrinho, a vovó, o reencontro, com lágrimas nos olhos. A câmera 3 fez um close do seu rosto, e quem assistia viu uma mulher de verdade, sem maquiagem glamourosa, apenas uma luz crua que mostrava cada ruga de preocupação e cada centelha de paixão. O telefone da emissora começou a piscar. Mais de cem ligações em um minuto. Pessoas querendo adotar, querendo elogiar a "nova apresentadora".

Depois que o programa terminou, Armando veio abraçá-la.

— Você salvou a edição. E a audiência bateu 13 pontos, o maior índice do horário em meses.

Vanessa foi desmascarada depois que as câmeras de segurança mostraram que, no intervalo, ela afrouxou o conector do microfone de Natalia, deixando a conexão falha. Armando queria demiti-la na hora. Natalia pediu pra ele esperar. Foi até a sala de produção, onde Vanessa estava encolhida numa cadeira, o rosto inchado de choro.

— Por que você fez isso? — a voz de Natalia saiu cansada, não raivosa.

— Porque eu… Eu sei fazer melhor que você. Eu estudei, eu merecia. Você só estava lá porque era amiga do Armando.

— Vanessa, eu não tenho padrinho. Eu carreguei cabo, troquei filtro de luz, limpei sujeira de estúdio por uma década.

Natalia ficou em silêncio, encarando a estagiária. Depois se virou para Armando, que aguardava na porta.

— Ela não vai ser demitida. Fica como estagiária, mas longe da produção do "Manhã Viva". E vai pedir desculpas ao público amanhã.

Vanessa abriu a boca como se fosse protestar, mas baixou a cabeça.

Um mês depois, Natalia assinou contrato como apresentadora titular. Numa manhã de janeiro, enquanto se arrumava no mesmo camarim (a lâmpada já consertada), recebeu uma mensagem: "Mãe, tirei 10 em matemática e a Dona Ivete fez bolo de fubá. Te amo. Bjs, Maria Clara."

Encarou a foto da filha no celular, sentiu o peito apertar. Colocou o microfone, fitou o Pão de Açúcar lá fora, agora dourado pelo sol, e disse baixinho:

— Vamos nessa, que o Rio tá ligado.

E a vinheta subiu.

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